 Miranda do Corvo - Habitantes acima dos 700m 400.
- Lugares acima dos 700m 6.
|  |
|
Miranda do Corvo, vila sede de concelho, pertence ao distrito de Coimbra. Tem uma área de 127,28 Km2, distribuída por cinco freguesias: Lamas, Miranda, Rio de Vide, Semide e Vila Nova, englobando uma população residente de cerca de 14 000 habitantes. O município é delimitado pelos vizinhos concelhos de Vila Nova de Poiares, Lousã, Figueiró dos Vinhos, Penela, Condeixa-a-Nova e Coimbra.
Sobressaem os altos de Salgueiro, Espigão, Tróia e Pessegueiro. A área principal do concelho corresponde às freguesias de Miranda e Vila Nova, situadas, quase na totalidade, na extensa bacia fértil que vai da vila até ao sopé da serra que corre da Lousã para o Espinhal e que, no concelho, toma os nomes de Espinho e de Miranda; a parte norte é acidentada, e a serra de Semide, que vem do Ceira até à vila, abriga as freguesias de Semide e Rio de Vide.
Pelo sul, o concelho é delimitado pela serra e pelas ondulações irregulares que ligam com Penela. A parte poente é constituída pela freguesia de Lamas, formada por terras que lhe dão o nome e onde predomina o cultivo da vinha.
O concelho é contemplado pelo rio Dueça nascido na vizinha Penela, orientado no sentido S-N e que tem como principal afluente a ribeira do Alhêda, que nasce próximo da aldeia serrana do Gondramaz, e atravessa a vila. Esta é atravessada pela estrada nº. 342 que, de Lamas, segue para a Lousã; e pela nº. 17-1 que vem de Semide e segue para o Espinhal. Uma nova via rápida vai ligar Condeixa à Lousã.
Economicamente assiste-se a um intensificar do sector terciário em desproveito do primário. A indústria tem alguns exemplos. A vila é servida pela linha férrea do “Ramal da Lousã” que, entre Miranda e Coimbra, nos dá a conhecer a bela mata da Trêmoa, outrora foreira do cabido da Sé de Coimbra.
|
Gastronomia |
A gastronomia principal está ligada à criação de cabras que nestas pastagens de montanha encontram o local ideal para se desenvolverem. Assim os principais pratos feitos à base de carne de cabra são: Chanfana; Negalhos; Chispe e Sopa de Casamento.
A Chanfana teria surgido no Mosteiro de Semide, instituição religiosa pertencente actualmente à nossa freguesia de Semide, generalizando-se o seu consumo após a 3ª Invasão Francesa, apoiada numa região com tradição na produção vinícola e com uma indústria de transformação de barro ancestral.
Até finais do séc. XIX, todos os agricultores e rendeiros eram obrigados ao pagamento dos foros. Muitos dos moradores, porque eram pastores, pagavam com cabras e ovelhas. Os foreiros libertavam-se dos animais mais velhos que já não lhes davam leite nem se reproduziam. Ora, como as freiras não tinham disponibilidade nem meios para manter tão grande rebanho, descobriram uma fórmula para cozinhar e conservar a respectiva carne, aproveitando o vinho que lhes era entregue pelos rendeiros, o louro que tinham na sua quinta, bem como os alhos e demais ingredientes.
Surge, assim, a Chanfana que era religiosamente guardada, ao longo do ano, nas caves frescas do mosteiro. A carne assada no vinho mantinha-se no molho gorduroso solidificado, durante largos meses. É inegável, em termos históricos, a contribuição das ordens religiosos no aparecimento de muita da nossa gastronomia. Basta lembrarmo-nos da doçaria conventual.
O vinho tinto utilizado era de grande qualidade, pois só assim a carne ficaria mais tenra. Não se pode deixar de associar a utilização deste líquido ao facto do concelho de Miranda do Corvo, nomeadamente a freguesia de Lamas, onde o Mosteiro possuía inúmeros coutos, ser conhecida pela qualidade do seu vinho tinto “carrascão”, ainda hoje produzido em abundância.
Durante a terceira Invasão Francesa, as freiras terão divulgado esta fórmula gastronómica, devido a necessidades imperiosas da própria conjuntura histórica, concretamente, para evitar que os soldados franceses roubassem as cabras e as ovelhas da região.
Diz-se, então, que quando as tropas francesas circularam pela região de Miranda do Corvo, a população envenenou as águas para matar os franceses. Mas, como era necessário cozinhar a carne habitualmente consumida, utilizou-se o vinho da região.
A Chanfana é um prato típico do concelho de Miranda do Corvo, de onde cremos ser originária, que se expandiu praticamente por toda a região centro onde adquiriu várias nuances. É muito apreciada e servida em quase todos os restaurantes do nosso concelho. De salientar que constitui o prato «obrigatório» quando decorrem as festas religiosas anuais em Miranda do Corvo pelo S. Sebastião, em Janeiro, e é ainda hoje imprescindível na ementa dos casamentos, sendo como tal também chamada “Carne de Casamento”.
Assim a gastronomia característica do concelho de Miranda do Corvo nasce com o modo de vida e criatividade das monjas do Mosteiro de Santa Maria de Semide, importante núcleo religioso e administrativo; no contexto político, social e económico da 3ª Invasão Francesa; condicionada pela presença de um complexo industrial de oleiros do barro vermelho e uma boa produção vinícola.
Numa época em que as dificuldades económicas prevaleciam na maior parte da população, tudo tinha de ser minuciosamente aproveitado. Assim, com a carne temos a Chanfana; com o molho e as sobras, a Sopa de Casamento; com as peles (depois de limpas e secas ao sol) faziam-se os “foles” para levar os cereais aos moinhos e o azeite às feiras.
Consta que também os Negalhos remontem a esse difícil período da época da terceira Invasão Francesa, em que as necessidades de sobrevivência e de miséria se acentuaram ainda mais. Estando a rarear a carne, porque os invasores franceses roubavam os rebanhos, a população teve de aproveitar tudo, inclusivamente as tripas dos animais cuja carne – preciosa e agora rara - utilizava na sua alimentação. Experimentaram, então, cozinhar as tripas segundo a receita da Chanfana e terá dado resultado.
Há um factor extremamente importante para o sucesso destes pratos, que se prende com as condições de cozedura. Tanto a Chanfana, como os Negalhos são cozinhados em caçoilas de barro tapadas com folhas de couve. Neste concelho desenvolveu-se uma indústria artesanal de olaria de barro vermelho de que há notícias, pelo menos, desde o séc. XVI.
O forno de lenha, elemento fundamental na cozedura da broa, é previamente aquecido e, depois de fechada a boca, deve ser vedado com barro. Como estes pratos apenas são consumidos no dia seguinte, devem ser mantidos no forno até à hora de serem servidos. Nessa altura o barro é picado para abrir a porta e a caçoila é retirada e colocada sobre as trempes junto à lareira para aquecer lentamente.
Comia-se carne apenas em épocas especiais – festas, casamentos - e os legumes plantados em pequenas hortas, a par do pão, foram, desde sempre, os alimentos de maior consumo pela população portuguesa. Como tal o aproveitamento de um produto tão precioso como a carne tinha que ser total, evitando todo e qualquer desperdício. Assim, comida a Chanfana, com o molho faz-se a “Sopa de Casamento”.
Era tradição dar aos convidados o almoço no dia seguinte ao casamento, e como já não havia carne suficiente, com o molho fazia-se a dita sopa e enfeitava-se com os restantes pedaços de carne. Trata-se de um aproveitamento óptimo do molho da chanfana, que nunca é totalmente consumido. Como é muito saboroso e rico, não só em gordura mas também nos sucos de carne, seria uma pena desperdiçá-lo. Tal como a Chanfana, este prato é cozinhado em recipiente de barro vermelho para depois ir ao forno apurar. A sopa acaba por ser o fechar do ciclo de aproveitamento da cabra.
|
Artesanato |
Rendas
No séc. XII foi fundado, em Semide, um mosteiro das religiosas beneditinas, onde segundo a tradição se executaram rendas mais tarde usadas nas festas religiosas, não só para ornamentar os altares mas também para as vestes e paramentos. Nesta povoação existem ainda rendeiras que trabalham em suas próprias casas havendo uma ajuntadeira que recolhe os trabalhos para posterior venda. Esta tradição da ajuntadeira tem passado de mães para filhas, assim como os desenhos que, de geração em geração, vão sendo doados como herança. As rendas são hoje executadas em fio de algodão muito fino, preso ao ombro num pequeno búzio, mais tarde ganhando o nome de “rendas engomadas“, já que, depois de prontas, levam um banho de goma, que não só lhes dá maior durabilidade mas também as torna mais abertas.
Cestaria
Com o acentuado decréscimo da actividade agrícola, também esta forma de artesanato entrou em franco declínio, já que era aquela que absorvia quase toda a produção cesteira. No entanto esta arte – que consta do entrelaçamento de matérias primas de origem vegetal (castanho, acácia, vime e outros) – ainda é visível nos lugares do Torno, Cardeal e Casal das Cortes, aldeias da serra de Vila Nova. É uma actividade artesanal atraente e de grande destreza manual que desenvolve, ao mesmo tempo, o espírito de observação e o sentido de tacto. É visível ainda em lugares das freguesias de Vila Nova e Rio de Vide, como foi dito.
Latoaria
A latoaria é uma actividade artesanal que, através da produção de objectos como sejam funis, almotolias, alcatruzes, candeeiros de azeite, ladras e outras mais, responde a necessidades do quotidiano comum. A folha de Flandres, a folha de zinco, a folha de alumínio e a chapa zincada são as matérias-primas mais utilizadas. As ferramentas e utensílios usados são os seguintes: bigorna, fieira, prancha, compasso, ferro de soldar, tesoura, talhadeira, bitola, lima, ponteiro, martelo de pena e bola, furador, maço de madeira, riscador de metal, escala metálica. O aparecimento de outras matérias-primas (por exemplo, o plástico) trouxe a decadência desta actividade artesanal. Encontra-se, sobretudo, nas freguesias de Miranda do Corvo e Lamas.
Tecelagem
Ganha de facto consistência o pensamento de que foi a presença árabe no nosso país que originou a tecelagem. É de facto notória a semelhança entre os teares persas e os que existem na nossa região. A tecelagem desta região é a chamada tecelagem de Almalaguês, a qual, se diferencia da chamada tapeçaria regional de Coimbra. A “Tecelagem de Almalaguês” é uma tecelagem bordada em puxados e executada exclusivamente em fio de algodão. A tecelagem encontra-se nas freguesias de Miranda do Corvo (rendas, tapeçaria, colchas de trapos), Lamas (tapeçaria, rendas, bordados), Rio de Vide (bordados, rendas, tapeçaria) e Semide (rendas, bordados).
Tanoaria
Sem dúvida ligada a uma região desde sempre produtora de vinhos, é possível encontrar ainda alguns resquícios desta actividade na freguesia de Lamas.
Escultura
A figura de Carlos Rodrigues é, por si só, motivo mais que bastante para conhecer a sua obra, projectada já em todo o país e além fronteiras aproveitando ainda para conhecer essa bela aldeia serrana que é o Gondramaz na freguesia de Vila Nova.
|
|